3. Os clássicos
Augusto Comte
(1798 - 1857)
Émile Durkheim
(1798 - 1857)
Max Weber
(1798 - 1857)
Karl Marx
(1798 - 1857)
Augusto Comte (1798 - 1857)
Filósofo francês, considerado o pai da Sociologia. Fundou o Positivismo propondo que
a Sociologia deveria estudar os fatos humanos usando procedimentos, métodos e técnicas
empregados pelas ciências da natureza.
Palavras –chave : Positivismo
– Estática e Dinâmica Social –
Lei dos Três Estágios
Positivismo
O positivismo defende uma unidade metodológica para investigação de dados tanto naturais como sociais.
A idéia é que tanto os fenômenos da natureza como os da sociedade são regidos por leis invariáveis.
Assim, nas pesquisas de orientação positivista, os dados empíricos são processados quantitativamente,
coletados e trabalhados com objetividade e neutralidade e, a partir de um referencial teórico, o pesquisador
levanta hipóteses e as testa.
O positivismo não aceita outra realidade que não sejam os fatos, fatos que possam ser observados.
Não se interessa pelas causas dos fenômenos, porque isso, segundo os positivistas, não é tarefa da ciência.
Não está interessado também em conhecer as conseqüências de seus achados. Sua postura deve ser de neutralidade
diante do objeto da pesquisa e de seus resultados. Tendo os fatos como único objeto, cabe ao cientista social
descobrir as relações entre eles com instrumentos específicos, sempre na busca da objetividade científica.
Estática social e dinâmica social
Para Comte, assim como o organismo, a sociedade deveria ser estudada em duas dimensões:
a da estática social (análise de suas condiciones de existência; de sua ordem) e a da dinâmica social
(análise de seu movimento; de seu progresso). Ordem e Progresso se relacionam estreitamente.
A primeira é possível sobre a base do consenso, que assegura a solidariedade dos elementos do sistema.
O segundo deve ser conduzido de tal maneira que assegure a manutenção da solidariedade, a fim de evitar a
desintegração social.
Lei dos Três Estágios
Observando a evolução das concepções intelectuais da humanidade, Comte formulou a Lei dos Três estados,
segundo a qual a sociedade evolui através de 3 estágios: o estágio teológico, em que o pensamento sobre o
mundo é dominado pelas considerações do sobrenatural – religião e Deus; o estágio metafísico em que predomina
o pensamento filosófico sobre a essência dos fenômenos e pelo desenvolvimento da matemática e da lógica;
o estágio positivo, em que o conhecimento passa a ter utilidade prática porque se baseia na ciência, ou seja,
na observação cuidadosa dos fatos empíricos. Fazer da sociologia uma ciência positiva é justamente a proposta
de Comte.
Émile Durkheim (1858 - 1917)
Sociólogo francês, foi o primeiro a utilizar pesquisas sociais científicas, abrindo assim estrada para uma
ciência sociológica objetiva e científica do tipo moderno. Seu ponto de partida foi a constatação de que as
pesquisas sociológicas em curso usavam abordagens de caráter ideológico ou psicológico, sem critérios
científicos para responder aos problemas reais. Assim, se propôs a “emancipar” a sociologia, a fazer uma
ciência do fato social distinta e autônoma, ou seja, a explicar o social pelo social, estudando as estruturas
que garantem a integração do indivíduos e a coesão da sociedade.
Palavras-chave : Fato Social –
Solidariedade e Coesão Social -
Indivíduo e Sociedade
Fato social
O aspecto mais importante da sociologia durkheimiana é a noção de fato social. Para Durkheim, fato social
é um modo de agir e pensar que se impõe ao indivíduo que faz parte da sociedade. É social porque é externo
ao indivíduo, não diz respeito ao indivíduo singular mas à sociedade.
O fato social - a integração dos indivíduos em uma comunidade moral de significação - é irredutível aos
fatos psicológicos e biológicos. É um fato coletivo, objetivo, não subjetivo nem mental e que responde a
leis sociais autônomas da Psicologia e da Biologia. A característica essencial dos fatos sociais consiste
no poder que esses têm de exercitar do exterior uma pressão sobre as consciências dos indivíduos.
Dessa noção de fato social deriva a primeira regra metodológica estabelecida por Durkheim: os fatos sociais
devem ser tratados como coisas. Isso não significa, para Durkheim, entender os fatos sociais como algo
material e sim abordá-los com objetividade, isolando-os das manifestações individuais. Em resumo, analisar os
fatos sociais como coisas é tomá-los como uma realidade externa. Ao cientista cabe examinar os atos e os fatos
com olhos inquiridores e isentos, libertando-se das falsas evidências, porque elas são criações de fora do
campo científico, que influem na paixão do observador sobre os objetos que se põe a examinar.
Solidariedade e Coesão Social
Para Durkheim a sociedade se funda na solidariedade. Mas na sua concepção, solidariedade não significa
“espírito de fraternidade” ou “inclinação para fazer o bem”. Solidariedade é a condição do vínculo social,
é o conjunto de laços que efetivamente prendem os elementos ao grupo, é a consciência interiorizada que os
indivíduos têm de viver em sociedade e compartilhar os seus valores. A solidariedade é, portanto, o que
garante o a integração geral da sociedade e é justamente pesquisando os fundamentos da coesão social que
Durkheim identifica dois tipos de solidariedade:
• Nas sociedades pré-modernas – nas quais não há divisão do trabalho – não há espaço para as
diferenças e para a individualidade: o indivíduo se submete à família, a família se submete ao clan e o
clan se submete à tribo. Nessas sociedades, a solidariedade é mecânica, como a de moléculas e um corpo
inorgânico. A vida social ocupa todos os espaços da vida dos indivíduos e é forte a reprovação social por
qualquer ato que transgrida as normas. Prevalece um sistema jurídico do tipo repressivo: romper o vínculo de
solidariedade constitui um reato.
• Nas sociedades modernas - de forte divisão do trabalho - a solidariedade não se funda mais na
igualdade e sim na diferença; cada indivíduo e cada grupo exerce funções diferentes e permanecem juntos porque
nenhum é auto-suficiente e todos dependem de outros. Isso implica a cooperação consciente e livre dos agentes
sociais, o desenvolvimento da contratação das relações sociais e o nascimento do Estado moderno. O sistema
jurídico não visa mais reprimir e sim restabelecer o equilíbrio quebrado por quem viola as normas. O tipo de
solidariedade que estabiliza essas sociedades é chamada por Durkheim de solidariedade orgânica.
Individuo e sociedade
Para Durkheim, a sociedade não é uma simples soma de indivíduos, é um todo, um realidade específica dotada
de características próprias. A interseção dos grupos, a interdependência constante das instituições
determinam o social, mas dessas interações nasce uma série de fenômenos que dizem respeito ao todo
diretamente e não às partes que o compõem. No pensamento do sociólogo, portanto, a sociedade prevalece
sobre o indivíduo, pois quando este nasce tem de se adaptar às normas já criadas, como leis, costumes,
línguas, etc. É a sociedade, como coletividade, que organiza, condiciona e controla as ações individuais.
O indivíduo aprende a seguir normas e regras que não foram criadas por ele, essas regras limitam sua ação
e prescrevem punições para quem não obedecer aos limites sociais.
Max Weber (1864-1920)
Economista e sociólogo alemão, foi um analista da modernidade, identificando na crescente tendência de
racionalização uma característica específica do desenvolvimento da civilização cultural ocidental.
Rejeitando a aplicação do modelo das ciências naturais à explicação dos fatos sociais, propôs uma
sociologia compreensiva ou interpretativa, ou seja, uma ciência que procure compreender os processos da
experiência humana que são vivos, mutáveis e precisam ser interpretados para que se extraia deles o seus
sentido.
Assim, ao contrário de Durkheim, Weber não pensa que a ordem social se distinga dos indivíduos como uma
realidade exterior a eles, mas que as normas sociais se concretizam exatamente quando se manifestam em cada
indivíduo sob a forma de motivação. Daí o foco de sua análise nos atores e em suas ações. Para ele
o objeto da Sociologia é a ação social e seu objetivo é a captação da relação de sentido da ação humana,
ou seja, a compreensão do fenômeno social como fato carregado de sentido que aponta para outros fatos significativos.
Palavras-chave :
Ação Social / Relação Social -
Especificidade do Racionalismo Ocidental -
Tipo Ideal,
Ética Protestante e Capitalismo -
A Burocracia
Ação social / Relação social
Mas o objeto da Sociologia não é qualquer ação. Para Weber só existe ação social quando o indivíduo tenta
estabelecer algum tipo de comunicação com os demais, quando há uma orientação significativa visando outros
indivíduos. Ação social é, portanto, qualquer ação que o indivíduo faz orientando-se pela ação de outros.
Analisando o modo pelo qual os indivíduos orientam suas ações, Weber estabelece quatro tipos de ação social:
1. Ação tradicional: determinada por um costume ou um hábito arraigado.
2. Ação afetiva: determinada por afetos ou estados sentimentais.
3. Racional com relação a valores: determinada pela crença consciente num valor considerado importante,
independentemente do êxito desse valor na realidade.
4. Racional com relação a fins: determinada pelo cálculo racional que coloca fins e organiza os meios necessários
para obtê-los.
Segundo Weber, só existe relação social quando as partes que agem atribuem no comportamento um mínimo de senso
comum à ação que executam. Não se trata necessariamente de solidariedade, mas é necessário que o sentido
atribuído à ação pelas partes seja comum, ou seja, tenham o mesmo significado. O sentido, quando se manifesta,
dá à ação concreta o seu caráter, quer seja ele político, econômico ou religioso. O objetivo do sociólogo é
compreender este processo, desvendando os nexos causais que dão sentido à ação social em determinado contexto.
Especificidade do racionalismo ocidental
Segundo Weber, a especificidade do mundo ocidental e da modernidade está vinculada à racionalização e ao
desencantamento do mundo. Esses dois princípios de ação social, que não aconteceram em nenhuma outra parte
do planeta, se expressam de maneira especialmente significativa na organização capitalista do trabalho e no
Estado burocrático moderno, com sua ênfase no critério de eficácia.
Somente no ocidente o processo de racionalização progrediu a ponto tal de englobar os sistemas de crenças,
as estruturas familiares, os ordenamentos jurídicos, políticos e econômicos, a ciência e até mesmo as
atividades artísticas. Isso aconteceu, segundo Weber, devido à dessacralização do mundo terreno, que
permitiu encarar a realidade natural e humana como uma realidade objetiva, privada de significados mágicos
e portanto, manipulável pela vontade humana. A ordem social, liberado do “sagrado”, pode sofrer um processo
de radical transformação na direção da modernidade e, no interior desse processo, um papel de fundamental
importância foi desenvolvido pela ciência.
Tipo ideal
Para compreensão das sociedades em determinados momentos da história, como no caso da sociedade capitalista
e burocrata, Weber uso como instrumento metodológico o tipo ideal. Trata-se de uma construção abstrata,
idealizada, que combina e acentua um determinado número de elementos que, embora encontrados na realidade,
são raramente ou nunca descobertos nesta forma específica. Não é, portanto, uma descrição de um aspecto
definido da realidade, nem uma hipótese, mas um instrumento que pode ajudar tanto na descrição como na
explicação do real. Construído o tipo ideal, ele é testado empiricamente para medir o real, ou seja,
para verificar em que medida há correspondência ou não entre real e ideal.
A ética protestante e o espírito do capitalismo
Weber procura entender porque o capitalismo se desenvolveu só no Ocidente quando as potências mundiais eram
a China, a Índia e zonas do Oriente Médio. Sustenta a tese de que esse desenvolvimento não pode ser explicado
por fatores meramente econômicos. Defende que tal fenômeno se deve ao espírito do capitalismo, isto é ao
valores nos quais acreditavam os comerciantes e os industriais daquele período, os quais acumulavam riquezas
e as reinvestiam ao invés de dissipá-las com o consumo. Esse comportamento, segundo Weber, tinha bases
religiosas: os protestantes seguidores de Calvino acreditavam na doutrina da predestinação segundo a qual só
alguns eleitos poderiam alcançar o paraíso e o sucesso nos negócios era o sinal de pertencimento a esse grupo.
A esse fator, o sociólogo acrescenta o tipo de vida simples que esses protestantes levavam e a crença que
tinham de que os seres humanos são por vocação destinados por Deus a trabalhar.
A burocracia
Weber sustenta que a burocratização não é inevitável apenas no capitalismo, constitui o destino comum de
todas as sociedades modernas, inclusive das socialistas. Para o sociólogo, a burocracia é o pilar fundamental
do moderno estado de direito, na medida em que permite diferenciar a esfera político-administrativa de outras
esferas (religião, economia...). Nesse sentido, cumpre um papel racionalizador. Se existe um Estado de direito
deve existir necessariamente uma burocracia que dê sentido e estrutura organizativa à lei. Todos os sistemas
organizativos eficazes se baseiam na burocracia: o Estado, a empresa e inclusive as igrejas. Sem burocracia
não há racionalização, nem sociedade baseada na lei.
Karl Marx (1818 – 1883)
Economista, filósofo e socialista alemão, revolucionou o estudo da sociedade, apontando para a influência do
fator econômico sobre os fatos humanos. Sustentando que as relações sociais são inteiramente interligadas às
forças produtivas, acreditava que a pesquisa sociológica só seria possível se buscasse compreender a
sociedade de forma global (todos os seus aspectos, culturais, econômicos, políticos, sociais) e histórica.
Estudar a evolução da sociedade humana, segundo Marx, implicava partir do exame empírico dos processos
concretos da vida social da existência humana, ou seja, da análise das condições materiais da existência.
Palavras-chave : Base Material da Existência Humana –
Luta de Classes –
Base e Super-estrutura –
Ideologia –
Alienação
A base material da existência humana
Na concepção materialista da vida social – o materialismo histórico - o discurso sobre o homem e sobre a
história tem que partir da análise de fatos reais, ou seja, fatos constatados apenas pela via empírica.
Essa análise evidencia que os homens começaram a se distinguir dos animais quando começaram a produzir os
seus meios de subsistência. O que os indivíduos são depende das condições materiais de sua produção, este é
o pressuposto básico da concepção materialista da histórica. Essa produção implica necessariamente uma
relação do homem com a natureza e com os outros homens, relação essa que assume forma própria e específica em
cada época do desenvolvimento histórico. As forças produtivas e as relações de produção são interdependentes
e constituem a base real da sociedade. Quando se deixa de considerar um deles, o que se tem é uma concepção
abstrata do homem, da sociedade e da história.
A luta de classes
Analisando as condições de produção de seu tempo, Marx observou que as desigualdades sociais eram provocadas
pelas relações de produção do sistema capitalista, que dividem os homens em proprietários e não-proprietários
dos meios de produção. A posse dos meios de produção, sob a forma legal de propriedade privada, faz com que
os trabalhadores, para assegurar a própria sobrevivência, tenham de vender sua força de trabalho ao empresário
capitalista, o qual se apropria do trabalho de seus operários. Nesse contexto, as relações entre os homens se
caracterizam por relações de oposição, antagonismo, exploração e complementaridade entre as classes sociais.
Esses antagonismos, subjacentes a toda relação social desde o surgimento da propriedade privada, fazem
da história do homem uma história da luta de classes, da luta constante entre interesses opostos. Essa luta é
o grande motor da história.
Base e Super-estrutura
O conjunto das forças produtivas e relações sociais de produção de uma sociedade são sua base. Sobre essa
base a sociedade constrói as instituições políticas e sociais que formam a superestrutura. A base determina
a superestrutura, ou seja, a superestrutura é o reflexo do conjunto das relações sociais de produção. Assim,
quando a base econômica se modifica, a superestrutura, que depende dela, também se modifica. Mas a
superestrutura, constituída pelas formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em
resumo, pelas formas de consciência social, não é passiva. Em uma sociedade divida em classes, ela assume
um caráter de classe e, com isso, também exerce influência sobre a base, acelerando ou moderando o
desenvolvimento social.
Ideologia
Na concepção do materialismo histórico, ideologia é modo de ver a realidade da classe dominante, ou seja,
é o conjunto de argumentos e valores que servem para exprimir e justificar os interesses dessa classe. As
teorias filosóficas, políticas, morais e religiosas, sendo produtos humanos, não são autônomas, são vinculados
à forma em que os homens vivem, por isso, em uma sociedade de classes, apresentam o interesse da classe
dominante como sendo o interesse comum de todos os membros da sociedade. Progressivamente, a ideologia se
torna independente das relações materiais e de classe que lhe deram origem e passa a funcionar como
instrumento material e moral de dissimulação da realidade e como norma de orientação cultural e de conduta
para os membros da sociedade. Com isso, as classes dominadas têm a ilusão de estarem pensando e agindo
racional e livremente, porque desconhecem o “poder invisível” que as forçam a pensar e agir de acordo com os
interesses de exploração e dominação dos que detêm os meios de produção. A função da ideologia é justamente
a de ocultar e dissimular as divisões sociais e políticas, é fazer crer que as desigualdades sociais,
econômicas e políticas não são produzidas pela divisão social das classes, mas por diferenças individuais
“naturais”, ligadas aos talentos e às capacidades das pessoas.
Alienação
O que torna possível a implantação e o fortalecimento da ideologia é a alienação.
Alienação significa, literalmente, “tornar-se outro” ou “ceder a outro o que é próprio”. Segundo Marx,
na produção capitalista a alienação social diz respeito à relação do operário com o produto de seu trabalho:
com a divisão do trabalho, esse produto é estranho ao operário, não pertence a ele e sim ao capitalista que
lhe dá trabalho. Na atividade produtiva o operário não considera o próprio trabalho como parte de sua vida
real. Por isso, o trabalho se torna apenas um meio de sobrevivência individual, deixando de ser a expressão
positiva da natureza humana. Com a alienação, portanto, o homem é privado de sua essência social. Alienados,
os homens não se reconhecem como agentes e autores da vida social com suas instituições; ignoram a origem
social das idéias e seu próprio trabalho para criá-las; acreditam que as idéias existem em si e por si
mesmas. A sociedade surge assim como uma força natural estranha e poderosa, que faz com que tudo seja
necessariamente como é. Na concepção de Marx, portanto, alienação social é o desconhecimento das condições
histórico-sociais concretas em que vivemos, ou seja, o desconhecimento de que tais condições são produzidas
pela ação humana.